Sabe quando acontece as reviravoltas mais exacerbadas, ao ponto de acharmos que nosso mundo caiu?
E ainda, aquelas em que você não acredita mesmo que tudo aquilo é real?
Começamos, agora, uma das mais complexas histórias já vividas, que Gumercindo pode nos contar. E caso deixou de ler quaisquer outro dos contos já postadas, dedicadas à alguém, você pode deixar de entender grande parte dessa passagem.
Tento acreditar que todos nós temos o dom do aprendizado. Principalmente com os maiores fracassos. E muitas vezes, estes fracassos nos criam "cascas" tão grossas e maciças, se tornando tão trabalhoso poder quebrá-las, ou que nem mesmo nosso sub-consciente consegue lidar.
Nossos deslizes se tornam materiais qualitativos no quesito sabedoria.
A menina J., como chamarei, sempre foi uma menina sorridente. Apesar de seu olhar esconder uma carga familiar extremamente pesada, se a visse, pode ter certeza: o sorriso estava estampado em seu rosto branco. Com teus cabelos totalmente negros, seus poucos centímetros de altura e apenas 13 anos de idade, deixava qualquer garoto, ou homem de queixo caído quando desfilava pelo pátio.
Gumercindo não pensava muito diferente. Aos seus 17 anos, conseguia apreciar a beleza da moça sem grandes pensamentos malevolentes.
Em um dia qualquer, as forças reuniram J. e Gumercindo, em uma de suas aulas. Por se tratar de aulas de dança, os olhares nunca sessaram. E os contatos físicos também não.
Com o tempo, uma grande amizade surge, pois acredito que naquela época, o respeito sempre foi mútuo.
Seu ombro amigo. Para todo e qualquer assunto que a atormentava, ali estava o rapaz.
Este cenário se repetiu por anos.
Em pouco tempo, J. inicia um namoro com então amigo de Gumercindo, F. Este namoro, um tanto conturbado, pois J. começara a adquirir a consciência de seu poder feminino, deixando paixões por onde passava.
O romance durou algum tempo. Mas se desgastou, com problemas não interessantes a nós, agora. Reencontros foram acontecendo entre J. e Gumercindo, mas, a moça estava sempre em um outro relacionamento.
Com a educação do rapaz, conquistara o respeito e carinho da família de J.
Após alguns anos, J. já moça, com aproximadamente seus 17 anos, uma chance deu a Gumercindo. Dias maravilhosos aqueles.
Não convém detalhes, porém, é de se mencionar que as desenvolturas da moça sempre extrapolaram as expectativas dele.
Assim foi, durante um bom tempo, em que surgia vontade, e estava lá os dois, vivendo e se conhecendo cada vez mais.
Apesar da intensidade de tais encontros, vez ou outra J. optava por namorar outros, nunca ofendendo ou preocupando Gumercindo, que também levava o "romance" pro lado aventureiro da coisa.
Em um de seus términos, J. aparenta muita mágoa, devido aos acontecimentos deste. Como dito, o moço nunca saíra do seu lado. Sempre o laço forte que tentava a trazer novamente para a superfície.
Os meses foram passando, e os encontros aumentando. Cada vez mais Gumercindo a desejava. Mesmo que somente por companhia, ou como apoio moral.
Apaixonou-se, mais uma vez.
Neste ponto da vida, acreditou que nunca encontraria alguém igual Jurema, ou Solange.
Em uma das formas mais cruéis de sofrimento, mente pra si sua paixão pela jovem moça.
Tal romance durou anos.
Nos meados de 2011, 2012, atingiu o ápice. As noites eram sempre frias, ou incompletas sem ela.
Com uma certa "carga" já trazida nos ombros, a casca psicológica que chegava junto era tão maciça, que nem os carinhos de J. podiam superá-las, achou.
Cometeu um de seus grandiosos erros,: o da sinceridade.
Não entendendo aquele sentimento que sempre o levava a pensar na moça, aconteceram frustradas tentativas de dizer suas intenções para com ela, ou a vontade de começar ali algo duradouro e sólido.
Mas, como de praxe, a vida não leva ele aos momentos que tanto almejava.
J., mesmo com todas as declarações, inicia um romance com outro rapaz, que por azar, não dura meses.
E, como não nos costumamos com notícias alegres quando o assunto é Gumercindo, ao terminar tal namoro, inicia outro. E sim, com um outro rapaz.
Claramente, Gumercindo vê novamente sua vida desabar, semelhante à uma cachoeira.
Seu orgulho nunca o deixou se aproximar novamente da moça.
Muito tempo se passa, desde que tal fato ocorreu.
Em uma noite de diversão, a encontra: como sempre, espalhando simpatia, felicidade e sorriso.
Já "cutucado" com tantas desilusões, não vê mais a possibilidade de uma boa vida a dois. Mal se falam.
Como não acredita que possa existir alguém que ainda abale suas vontades sentimentais, se emaranha em um bocado de que os jovens chamam "curtição".
A cada saída uma moça distinta.
A cada moça, a certeza de que o vazio engrandece.
Até que encontra aquela mulher, em que apesar de ter um romance com uma pessoa próxima, habita seus sonhos e desejos mais profundos. Claramente, não deixa que eles o instiguem a procurá-la. Não faria isso.
Os dias passam, e, em uma noite normal, de festejos e comemorações, acontece um beijo. Senhorita D.
É imensurável o tamanho de sua beleza. E não posso deixar de mencionar, que tal beleza está também na forma de agir, em seus trejeitos, suas manias, seus gostos e costumes. Tudo nela é tão grandioso e gostoso de se conhecer! Os dias passam a ter uma cor tão viva!
Nunca foi de acreditar em crendices. Ou coisas logicamente inexplicáveis. Mas, como bom sensato, tem a consciência de que há muitas coisas, forças, ou seres que não temos o conhecimento de existência. Mas, não é este o ponto.
Nas linhas e voltas desta nossa vida, srta D. não consegue comparecer à uma reunião marcada pelos amigos de Gumercindo. Nesta noite, passados meses de seu último reencontro, recebe uma ligação. Consegue reconhecer o número chamador, mas não tem ciência de quem poderia ser. Ao retornar tal chamada, escuta bem baixinho a voz dela:
-Gumercindo? É a J.
Um breve silêncio, acompanhado por um "alô", simples.
Houve então a vontade de um reencontro.
Como em todas as vezes, J. trazia sempre uma mala grande de confissões e feridas, e novamente Gumercindo a acompanha, em uma noite que acredito ser inesquecível pra ele.
Apesar das trocas de olhares e flertes, ao final não houveram beijos ou relações afetivas físicas.
Percebe o sentimento de vazio e a casca oculta que moldara seu coração por anos, se diluindo pouco a pouco.
Como pode, alguém com uma simplicidade e tamanha alegria conseguir uma proeza tão significativa em sua vida?
Apesar da vontade carnal, Gumercindo não consegue tirar o rosto dela da mente, em momento algum.
Ao deitar, lembra ele do almoço de mais cedo. Das piadas e contos de todas as noites, quando a acompanha em suas saídas noturnas. Ou até mesmo pelo afago que o leva ao mais alto nível de relaxamento, o cafuné. Senhorita D.
Poderia ele, acreditar que ainda há razões para crer em alguém?
Não sabemos. O importante, neste momento, é chegar em casa e ler a simples mensagem "adivinha quem ainda tá trabalhando..".
"Foi eu que te dei, o primeiro beijo, o primeiro toque, a primeira canção;
Se realmente quer ficar comigo, não faz bola de meia com meu coração..."